terça-feira, 12 de maio de 2026

O Pavilhão da Cultura da Agrotins e as Contradições do Agronegócio no Tocantins

 A Agrotins, reconhecida como a maior feira do agronegócio da região Norte, anualmente celebra os avanços e a pujança do setor. Dentro de sua programação, o Pavilhão da Cultura busca integrar a produção artística local, apresentando-se como um espaço de valorização da identidade tocantinense [1] [2]. Contudo, uma análise mais aprofundada revela uma série de contradições e desafios que merecem ser abordados criticamente, especialmente no que tange à fragilidade das políticas culturais estaduais e aos impactos socioambientais do próprio agronegócio.

A Fragilidade do Fundo Estadual de Cultura e a Dependência Artística

O estado do Tocantins, apesar de seu potencial cultural, não possui um trabalho sólido e efetivo com o Fundo Estadual de Cultura. A classe artística tocantinense sonha com uma Secretaria Estadual de Cultura atuante, que defenda os interesses da classe, bem como a efetivação de políticas públicas que garantam o cumprimento da Lei de Cultura [3]. Há relatos de que o Fundo Estadual de Cultura não é cumprido e que há uma carência de verbas, o que impede a execução do Plano Estadual de Cultura [4].

Nesse cenário de fragilidade institucional e orçamentária, o Pavilhão da Cultura da Agrotins, embora ofereça uma vitrine para artistas locais, acaba por criar uma dependência. A ausência de um fundo robusto e de políticas culturais contínuas e independentes faz com que a participação em eventos como a Agrotins se torne uma das poucas, senão a principal, oportunidade de visibilidade e remuneração para muitos artistas. Isso, por sua vez, pode levar a uma instrumentalização da cultura, onde a expressão artística fica atrelada aos interesses e à agenda de um setor específico, o agronegócio, em detrimento de uma produção cultural autônoma e diversificada.

Embora o Governo do Tocantins afirme ter investido mais de R$ 40 milhões na cultura em três anos e liderado a execução de políticas culturais em 2025 e 2026, com recursos destinados a ações culturais em todas as regiões do estado [5] [6], a percepção da classe artística e a persistência das demandas por um Fundo Estadual de Cultura sólido indicam que os desafios estruturais ainda persistem.

O Agronegócio e Seus Impactos Socioambientais: Uma Contradição no Pavilhão da Cultura

O agronegócio, motor econômico da região, é também um vetor de profundas transformações e conflitos socioambientais. A expansão das fronteiras agrícolas no Tocantins, embora o governo estadual aponte para uma redução do desmatamento ilegal e um avanço na regularidade do uso do solo [7] [8] [9] [10] [11], ainda gera preocupações significativas. Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) revelam um cenário preocupante de conflitos no campo. Em 2025, houve um aumento de 100% no número de assassinatos em comparação com 2024, e os conflitos por terra aumentaram em 75% [12] [13]. Em 2024, foram registrados 50 conflitos no Tocantins, atingindo cerca de 16,4 mil pessoas [14].

Esses conflitos frequentemente envolvem a perseguição a povos indígenas e comunidades quilombolas, além do desmatamento que impacta diretamente a biodiversidade e os ecossistemas locais. A celebração do agronegócio em eventos como a Agrotins, com seu Pavilhão da Cultura, cria uma dissonância. Enquanto a cultura busca expressar a identidade e as realidades de um povo, a base econômica que sustenta o evento é, para muitos, a causa de desterritorialização, violência e degradação ambiental.

A presença de manifestações culturais em um evento que simboliza um setor com tais impactos levanta questões sobre a responsabilidade social e ambiental do agronegócio. A arte e a cultura têm o poder de questionar, de dar voz aos marginalizados e de refletir as complexidades da sociedade. No entanto, quando inseridas em um contexto que as instrumentaliza, perdem parte de sua força crítica e transformadora.

Concluindo o raciocínio:

O Pavilhão da Cultura da Agrotins representa uma oportunidade para a visibilidade da arte tocantinense, mas também expõe as fragilidades do sistema cultural do estado e as contradições inerentes ao modelo de desenvolvimento do agronegócio. Para que a cultura no Tocantins floresça de forma autônoma e para que o agronegócio possa de fato se apresentar como um setor sustentável e socialmente responsável, é imperativo que haja um investimento real e contínuo no Fundo Estadual de Cultura, garantindo a independência e a diversidade da produção artística.

Além disso, é fundamental que o setor agropecuário reconheça e enfrente os desafios socioambientais que o acompanham, buscando soluções que respeitem os direitos dos povos tradicionais e a preservação do meio ambiente. Somente assim o Pavilhão da Cultura poderá ser um espaço de celebração genuína da identidade tocantinense, livre das amarras da dependência e das contradições de um modelo que, por vezes, ignora os custos humanos e ambientais de seu progresso.

Referências

[1] Portal Jacira Barros. Pavilhão da Cultura na Agrotins 2026 valoriza identidade.... Disponível em: https://portaljaciarabarros.com.br/pavilhao-da-cultura-na-agrotins-2026/

[2] TO em Foco. Pavilhão da Cultura da Agrotins 2026 recebe apresentações de artistas tocantinenses. Disponível em: https://toemfoco.com.br/blog-da-nubia-dourados/pavilhao-da-cultura-da-agrotins-2026-recebe-apresentacoes-de-artistas-tocantinenses/

[3] Conexão TO. Classe artística tocantinense pede desmembramento e estruturação imediata da Secretaria Estadual de Cultura. Disponível em: https://conexaoto.com.br/2023/01/12/classe-artistica-tocantinense-pede-desmembramento-e-estruturacao-imediata-da-secretaria-estadual-de-cultura/

[4] Instagram. FUNDO ESTADUAL DE CULTURA Mais uma Lei Cultural que não é cumprida. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DOLiAUDjZcd/

[5] Governo do Tocantins. Governo do Tocantins investe em projetos locais e na aproximação com a comunidade artística para valorização da cultura e preservação da história tocantinense. Disponível em: https://www.to.gov.br/secult/noticias/governo-do-tocantins-investe-em-projetos-locais-e-na-aproximacao-com-a-comunidade-artistica-para-valorizacao-da-cultura-e-preservacao-da-historia-tocantinense/3htu455qoaiu

[6] Agência Tocantins. Tocantins lidera a execução de políticas culturais em 2025 e alcança números históricos no setor. Disponível em: https://www.agenciatocantins.com.br/noticia/104015/tocantins-lidera-a-execucao-de-politicas-culturais-em-2025-e-alcanca-numeros-historicos-no-setor

[7] Governo do Tocantins. Tocantins tem o menor percentual de desmatamento ilegal do Brasil. Disponível em: https://www.to.gov.br/noticias/tocantins-tem-o-menor-percentual-de-desmatamento-ilegal-do-brasil/fvp9fdxuf4l

[8] Brasil Notícia. Regularidade no uso do solo avança e supera média nacional no Matopiba. Disponível em: https://brasilnoticia.com.br/agronegocio/regularidade-no-uso-do-solo-avanca-e-supera-media-nacional-no-matopiba/

[9] RDM Online. Tocantins se destaca em regularidade ambiental enquanto desmatamento cai no país. Disponível em: https://rdmonline.com.br/tocantins-se-destaca-em-regularidade-ambiental-enquanto-desmatamento-cai-no-pais/

[10] GT Notícias. Tocantins reduz desmatamento em quase 20% nos primeiros sete meses de 2025. Disponível em: https://gtnoticias.com.br/2025/08/tocantins-reduz-desmatamento-em-quase-20-nos-primeiros-sete-meses-de-2025/

[11] Tocantins Rural. Desmatamento no Tocantins cai 19,9% entre janeiro e julho de 2025. Disponível em: https://tocantinsrural.com.br/desmatamento-no-tocantins-cai-199-entre-janeiro-e-julho-de-2025/

[12] CIMI. Relatório anual da CPT aponta aumento de 100% no número de assassinatos em 2025. Disponível em: https://cimi.org.br/2026/04/relatorio-conflitos-cpt-2025/

[13] Instagram. Conflitos no Campo Brasil 2025 | Dados Tocantins A CPT Regional.... Disponível em: https://www.instagram.com/p/DXpu1Guk9Ut/

[14] Jornal Opção. Conflitos no campo e trabalho análogo à escravidão crescem no Tocantins em 2025 e superam registros do ano anterior. Disponível em: https://tocantins.jornalopcao.com.br/noticias/conflitos-no-campo-e-trabalho-analogo-a-escravidao-crescem-no-tocantins-em-2025-e-superam-registros-do-ano-anterior-587523/


Por:

Darlan Soares 

Gestor Ambiental 

Especialista em Educação Ambiental e Sustentabilidade UFPA 


sábado, 28 de fevereiro de 2026

Cultura Viva e distribuição de renda

Cultura, Sustentabilidade e Justiça Social: um Caminho para a Redistribuição de Renda

Em um cenário marcado por profundas desigualdades sociais e pela invisibilidade de territórios e sujeitos historicamente marginalizados, os Pontos de Cultura se afirmam como uma política pública transformadora. Sustentados pela ação dos fazedores e fazedoras de cultura, esses espaços fortalecem identidades, preservam saberes ancestrais e promovem a sustentabilidade dos modos de vida locais, articulando cultura, economia solidária e direitos sociais.

A relação entre cultura e pobreza não pode ser ignorada. Em muitos territórios periféricos, quilombolas, indígenas e rurais, a produção cultural é também estratégia de sobrevivência, gerando renda, autoestima e pertencimento. Nesse contexto, os Pontos de Cultura não são apenas espaços de expressão artística, mas também instrumentos de distribuição de renda, inclusão produtiva e fortalecimento comunitário.

Tratar a cultura como vetor de desenvolvimento sustentável significa reconhecê-la como um direito e como parte de uma política pública efetiva de combate à desigualdade social. Para isso, é fundamental ampliar os investimentos e garantir o acesso de comunidades invisibilizadas aos recursos públicos. A consolidação da Política Nacional Cultura Viva como política de base comunitária é um passo essencial para redistribuir poder, recursos e visibilidade.

Promover a cultura é, portanto, promover também justiça social, equidade e sustentabilidade. Fortalecer os Pontos de Cultura é fortalecer o Brasil profundo, criativo e resistente, que pulsa nas bordas do sistema e mostra que outra forma de existir, produzir e compartilhar é possível — e urgente.